Amo-te! Não sei o que significa mas significa certamente alguma coisa. Por mais vezes que o diga entendo o que digo como sempre pouco. Sobre a eternidade por agora nada tenho a dizer. Mas sei que a carne e o sangue já estão feridos de morte. Vivo de ti para ti e o resto é circunstância. Amo-te! E isso para mim é tudo. (mar) 17/01/11

Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

out of road


por vezes olho para dentro
de cada palavra
divinamente inspirada
tentando entender porque é que
o cuidado de Deus
não é universal

a última verdade revelada
em que Zé Manel acreditou 
não se materializou
e foi rapidamente consumida pela solidão
de um coração de carne
e o desespero de mais um amanhecer
aproximando-se
sem soluções

por vezes todos nós
tentamos ser cor de rosa
e abrimos a boca
barateando uma medicina espiritual
sem ácidos ou bases
muito parecida com o amor de Deus
mas definitivamente
fora da estrada

muitos Zé Manel
não nos vão perdoar


(mar) 24/02/11

Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

simulacro (air kiss)



a mão côncava
segura
as certezas permanentes
escondidas
no coração musicado
e a boca sedenta
solta-se
no sopro irrevogável

e os olhos em chamas
consumindo amor
sem o perigo da proximidade
denunciadora
do corpo

smack!

o tempo e o modo
suspensos
ensaiam
a eternidade

(mar) 21/02/11

Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

religião

hoje visitei o céu
enquanto o sono pairava
sobre um ninho de dúvidas
hospedado
nos meus pensamentos

um azul imenso
inquestionável
e as nuvens escondendo cânticos
de anjos
em voos de libelinhas sem nenúfares
nem substantivos

e abelhas cor de rosa
cuidadosamente amestradas
zumbindo
em danças exactas

uma imitação de Deus
já é alguma coisa

(mar) 17/02/11

Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

pós-modernismo



indago o coração
perguntando-lhe de quem será a culpa
desta prévia presença de um Deus
omnipresente
e quem será o responsável
pela claridade das coisas
insuspeitas de erro

não sabe/não responde

mas sabe que quanto ao estabelecido
a sua queda é certa
e que já se nota a aproximação do luto
pelas verdades inquestionáveis

e presume que seja preferível
a tirania das penumbras


(mar) 16/02/11

Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

Dunas



Espero pela Lua
para dizer um poema
com lado oculto
e um brilho escondido
essencial
só para ti.

O mote
são as lembranças
dos beijos
que me enchem a boca
com o seu sabor
a dunas de verão
nocturnas
e a sal
sem sapatos.

A partilha das estrelas
em pés descalços
sabe a rosas
e ao teu Amor.

(mar) 09/02/11

Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

dedicatória :)


o amor é luz
que não vê mais nada
além de ti

nasce na alma
mas a sua intenção
é dar o corpo

vício do coração
procurando sempre
para além do óbvio

por vezes nasce
nos sons acolhedores
de um mau poema

diamante por lapidar
delito
ou intenção

o melhor a fazer
ao amor, meu amor
é deixá-lo nascer

num segundo olhar
a uma rima detestável
e ocasional

com uns olhos
que vejam o essencial
e o mastiguem

o melhor a fazer
ao amor, meu amor
é deixá-lo nascer

o amor é luz
que aos erros
fecha os olhos

um bicho álacre
com sabor
a flores silvestres

não tem cura
e a melhor terapia
és tu

(mar) 03/02/11

Domingo, 23 de Janeiro de 2011

pink gospel party

a sala cheia
é domingo e ao domingo
todos se enchem de fé
ou talvez não
e buscam nas sagradas escrituras
motivos
para fazer tudo bem
e receber a cem
por um

gostam de milagres
euros
e coisas assim
fáceis
e sem esforço pessoal
com anjos e demónios
confrontados
em espectáculos
de graça
muito bem pagos

mas todos sabem
que têm que ser perseverantes
e que só terão resposta
aos problemas
da alma
ou outros
se fizerem o pino
e ficarem
de cabeça para baixo
... ou sem carteira

ou talvez não

talvez seja necessário
apenas
um pouco de inteligência

(mar) 20/01/11

Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Utopia

Utopia
é um exercício
de inteligência

Pão
para a mente
e equilíbrio
do coração

Uma certeza
pública
entre as coisas
particulares
em que acredito

O sonho
da vida
o paraíso

Os abraços sem aviso
prévio

Bocas de
bondade
e tolerância

A oração
multicolor
sem custos

Olhos amigos
sustendo
o medo

Os verbos
inclusivos
substantivos

Aves e lírios
em louvor

Coisas assim
raras
compradas
sem dinheiro e sem preço

E a porta
sempre aberta
para entrar e sair
e sair e entrar

A conquista
das coisas
improváveis

Círculos
em movimento
de Amor
Vários círculos, de Kandinsky

(mar) 14/01/11

Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

bolero de ravel

o corpo dança
em ritmo fremente quase inaudível
para um novo
bolero de ravel

abre o coração silencioso
sempre incompleto de amor
esperando
pela essência das mãos

elevam-se os braços
em sinais de luz
indicando o caminho
da ternura

o amor
é um vício do corpo
alimentado pela prática continuada
de danças mágicas 

os beijos
ainda não dados
prometidos da boca
aproximam os sentidos

com o amor no corpo
e a oferta da alma
um bolero de ravel
é sempre urgente

(mar) 07/01/11

Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

Equilíbrio

Delicado Equilíbrio, de Teresa Cristina Carneiro.

O que vejo
não fica para trás de mim
atravessa como a ave o ar
mas deixa um rasto
presente
nos meus olhos
marcando-os
em fogo
permanente.

A montanha
por exemplo
da infância
não se contenta em ficar nas costas
do tempo
mas quer estar comigo
em jeito de balança
tácita
de mim.

E os teus olhos
que me sustentam de amor
atravessando-me a alma
até a matar lentamente
dando-lhe vida
são loucura da mente
e alimento
do coração.

Pois o céu
é uma auréola incompleta
e sem limites
que não filtra as coisas boas ou más
pois não sabe a diferença
entre a rosa
e a embriaguês
dos sentidos.

Por isso amo o mar
a pedra, o rio
a bouça, o prado
e o zumbido das abelhas
substantivas
que me fazem lembrar de mim
para o equilíbrio
presente
em fogo
permanente
do que vejo.

(mar) 03/01/11